Charneca

Formiga-me o rosto pelos olhos,
Primeiramente, maravilhados pela
Luz, o som invadindo os ouvidos
Soando como a melodia mais
Despretensiosa e bem feita já criada,
Enche-me de vida, de ar, vida, luz,
Ilude-me pelos mais belos minutos que
Tive o prazer de observar-lhe e, ao
Fim, dá-me a realidade como é, com
Corda, engano, precipício e fim. E fim,
E não mais, finito, acabou. Arranca-me
O viço, a luz, o ar, a vida, e dói, e arde,
E queima, e formiga, e lateja, e esvazia,
Me deixa ao léu, sem cama, sem comida,
Sem água e sem estrelas, e o céu me
Esmaga, me sufoca, me aperta ao pescoço,
E eu choro, eu grito, eu abro bem os meus
Olhos em choque, espanto, medo e certeza,
Se foi, acabou, fim, finito. E levou-me um
Pedacinho junto. E deixou-me um buraco,
Um buraco que sente, que chora.