Fria(mente Calcu)Lado

Ahoy!, (senta ali no cantinho, me dá
Um sorriso e não) Reclama da vida,
Curte esse som e me inspira. Só faça
Isso. Te alimento, te dou entretenimento,
Em troca de todo o (nada que) Tudo que
Podes me oferecer.

(Diz que vai pensar, diz que dificultei.
Veio me falar da noite mal - bem - gasta
E esqueceu de me - se - alimentar) - Só faça,
Independente da forma, independente da
Vontade (se é boa, se é má, se é que
Existe), da Verdade. - Só diga;

Aqui chove. Podes ouvir as gotas assolando
O chão. Podes sentir o cheiro da nuvem,
Tão carregada quanto suas palavras. Quanto
Seus olhares - quanto a forma que me encaras,
Deixando-me em dúvida se queres arrancar-me
A vida nos dentes ou no silêncio, mal sabendo
Que ‘Ele me é o melhor dos amantes - ou quanto
A pressão que faço. Não trabalhas sob Pressão.

Eu trabalho, (Não tem problema, já ajuda, de
Alguma forma) e trabalho porcamente. Mas
Não me diga não. Uma palavra - merda! - Não.

Visões

Apenas mais uma constatação: Olhos
Claros são escorregadios. Adoram sair
Pela tangente, ao passo que os escuros
Os procuram certos - mesmo que
Exitantes - e os devolvem alguma forma
De estabilidade. Enganosa, pode até
Ser, ou mesmo coisa de momento, mas
Ao menos não escorregam.



Não desviam ou manipulam.
Não muito.
Não como os claros.

Viralizando

Mais um copo, por favor, mas me
Sirva, que eu prefiro. Mais um trago,
Um sorriso com significado, mesmo
Que seja um já bem batido, e uma olhada
Aos pés. Para fora. Um arrepio que cresce,
E crescendo tanto gela quanto esquenta.
Vai, envolve teus braços ao meu redor,
Me aperta, bem forte, que eu fico. Com cheiro
De tabaco, eu fico. Com cheiro de cerveja,
Eu fico. Juro que fico. Mesmo que pouco,
Mas fico bem. Suficientemente bem, se
Isso significar que esse aperto passa. Se
Isso significar que esse aperto melhora.
(Só que não significa)
Se melhorar significar que me esmigalha,
Melhora. Tenho certeza.

Encruzilhada

O abrir de olhos revela-te aquilo que
Desejavas não ser verdade, ou Verdade:
Começaram a arrancar-lhe o coração do
Peito. Talvez não o coração, mas sim qualquer
Que seja o nervo ou terminação nervosa que
Seja o responsável pelo senso e pela simples
Alegria; agora tu és acerca de um escravo
Com um senhorio que sequer percebe sua
Existência, ou lhe dá o tal valor.

Sem mais prosa em quebras de linha, honestamente
E, claro, honestando, abre teus olhos e encontra
Aqueles castanhos meio esbugalhados,
Meio ansiosos - ou talvez seja somente alguma forma
De disfarce ou atuação - e incertos, aquele sorriso
Meio de canto que te parece tímido, as mãos junto
Às pernas e é aí que tu procuras os verdes. Os
Verdes são indecifráveis - não dá para saber se gostam
Do que vêem - pelo menos do jeito esperado - ou sequer
Se têm qualquer opinião formada. Sabes que não desgostam
Por completo, já que não desdenham. Não são falsos,
Porém difíceis, tens certeza de que são certos e que algum
Julgamento têm, mesmo que seja raso. Claro que junto aos
Verdes vêm os sorrisos e talvez qualquer expressão corporal
Que te dê algum indício de que sim, aprecias de fato, com
Alguma intensidade, mas é o ilegível que vale, por fim.

O ilegível te faz recorrer aos castanhos e duvidar, por
Alguns segundos, da legitimidade do direcionamento dos
Impulsos nervosos para com ele mesmo, mas quando tu
O perdes de vista te bate aquela certeza de que sim, são
Os certos e indefiníveis que te causam melhor impressão
(Se é que arrancar-te o ar aos poucos pode ser chamado
Disso).

Olhos Verdes

"Eu escolhi", como se fosse questão de escolha.











Eu realmente escolhi.
“É esse”, eu falei,
Como se eu tivesse alguma autoridade.

Charneca

Formiga-me o rosto pelos olhos,
Primeiramente, maravilhados pela
Luz, o som invadindo os ouvidos
Soando como a melodia mais
Despretensiosa e bem feita já criada,
Enche-me de vida, de ar, vida, luz,
Ilude-me pelos mais belos minutos que
Tive o prazer de observar-lhe e, ao
Fim, dá-me a realidade como é, com
Corda, engano, precipício e fim. E fim,
E não mais, finito, acabou. Arranca-me
O viço, a luz, o ar, a vida, e dói, e arde,
E queima, e formiga, e lateja, e esvazia,
Me deixa ao léu, sem cama, sem comida,
Sem água e sem estrelas, e o céu me
Esmaga, me sufoca, me aperta ao pescoço,
E eu choro, eu grito, eu abro bem os meus
Olhos em choque, espanto, medo e certeza,
Se foi, acabou, fim, finito. E levou-me um
Pedacinho junto. E deixou-me um buraco,
Um buraco que sente, que chora.

Ama-me loucamente

Não me atrevo a ler-te, não quero
Me decepcionar (de novo). Provavelmente
É aquela coisa de idealizar, aliás, é isso
Com certeza. Prefiro esquecer - ou só
Amar - a tua humanidade e colocar-te
Naquele pedestal que costumava ser meu.
Daqui eu te olho, te cuido, te alimento, e
Tudo o que precisas fazer é me irritar
De vez em quando, discordar do que penso
E dar-me as costas. Eu não me importo com
Isso, de verdade, quando me lembro do
Que passou. Aí dá aquela dorzinha de “quero
De volta”, e eu aproveito, enfio o dedo na
Ferida, faço sangrar e abraço a dor, com um
Sorriso meio desgostoso mas do fundo da
Alma; grito, não, urro; mexo os pés, danço
No escuro, entrego minha energia e amo.

Eu amo.
(Maldita condição humana).

Na tempestade

Busco os refúgios errados,
Tomo uma, troco o canal da tevê
A música que toca é daquela banda
Que tu gostas, parece-me que a
Vida vem mais uma vez a gozar
Com a minha cara. É um daqueles
Momentos em que percebo que o
Que eu sempre acabo a fazer é aquilo que
Tu me ensinastes, a tomar, escutar e
Tatear, de alguma forma, as palavras.

Não podia importar-me menos quando vim
A me importar. É outro daqueles momentos
Em que sinto a tua presença distante. É
Daqueles que eu me dou conta de que eu
Posso não lhe valer coisa alguma mas tu
Me vales e admitir não me arranca pedaço.
É, daqueles, em que eu sinto você não
Me sentir, e gosto.

Imigrante

É de fato irrecusável quando te entra
Pelos ouvidos. Incrívelmente comprável
Quando te alcança as retinas. Ainda
Mais quando te senta em uma caixa de
Carvão, para que esperes as balas
Tradicionais carameladas de todos os
Domingos. A ansiedade que cresce no
Peito já é mais que conhecida, assim como
O afago no cabelo depois de recebê-la;

- Muito obrigada - é o que deveria ser dito
E realmente é, mas apenas com um sorriso.
As mãos com manchas lhe afagam os
Cabelos mais uma vez, e aquele cheiro de
Leste europeu te invade as narinas, quando -
De vez em nunca - vens lhe dar um beijo
Na bochecha. Os cabelos lisos e grisalhos,
O sorriso enrugado, os traços de rigidez
E, ao mesmo tempo, doçura, como daquela
Mesma bala, te arrancam suspiros do
Coração e pudera também lágrimas dos olhos.

Então entra na sala escura, com o tapete
Branco e macio, as inúmeras fotografias
Espalhadas em balcões antigos, ao redor dos
Três sofás de cor clara, mas entra descalço.
Sente o macio, olhe o pote transparente sobre
A estante e só olha. Espera para que a Menina
Venha lhe dar, com seus sorrisos rígidos e
Afagos nos cabelos.

Chapéu-côco

Entre procurar e encontrar
Eu fico com descobrir. Não
Foi assim, caminhando pela
Rua, cruzando olhares, trocando
Sorrisos, criando risos, ouvindo
Idéias, considerando ideais,
Estudando confissões, dançando
À músicas, desenhando movimentos,
Analisando comportamentos; não
Foi assim que tive paz não. Eu
Costumava sair para caçar,
Hoje já não o faço mais. A caça
Nunca era o que imaginava, muito
Menos o prazer de limpá-la,
Cozinhá-la e apreciar. Na realidade,
Limpar a sujeira é o que há de
Mais penoso, sem pestanejar.

Foi aí que eu parei de caçar.
E foi aí que eu descobri.
(Como se tivessem me acertado
Na cabeça. Eta tolice!)